domingo, outubro 15, 2017

Paul em Porto Alegre: a segunda vinda

Sete anos depois de sua primeira apresentação no Beira-Rio, em Porto Alegre, Paul McCartney voltou na sexta-feira 13 com o mesmo vigor, a mesma banda e um repertório parcialmente modificado, mantendo as canções clássicas da parte final. Quem não foi em 2010 teve uma segunda chance de conhecer o que o ex-Beatle e seus músicos têm de melhor a oferecer em termos de energia e musicalidade. Quem quis repetir a experiência com certeza não se decepcionou.
Infelizmente, perdi quase todo o show de abertura dos geniais Frank Jorge e Luciano Albo. Eu pretendia vê-los, mas fui surpreendido por uma fila quilométrica para entrar na Pista Premium, estendendo-se pela Avenida Padre Cacique no sentido centro-bairro e contornando o estacionamento. Mas até que andou depressa. Levei um guarda-chuva velho e quebrado que já sabia que não poderia levar para dentro do estádio e acabou sendo útil, pois os pingos caíam com firmeza. Mas depois a chuva deu várias tréguas e não chegou a ser tão intensa quando no show dos Rolling Stones, por exemplo. Pelo lado de fora, pude ouvir a ovação com que os músicos gaúchos foram recebidos. Entrei a tempo de escutar as duas últimas músicas: "Sob um Céu de Blues", dos Cascavelletes, e "Amigo Punk", da Graforreia Xilarmônica. O público cantou junto com entusiasmo.
Pontualmente às 21 horas, Paul abriu o show com "A Hard Day's Night", em pleno clima de Beatlemania. Já a segunda remeteu à minha adolescência: "Junior's Farm", do tempo dos Wings, compacto simples que comprei aos 14 anos com o dinheiro de minha mesada. Outras antológicas dos anos 70 que se ouviram foram "Jet", "Let Me Roll It", "Nineteen Hundred and Eighty-Five", a linda balada "Maybe I'm Amazed", "Band on the Run" e, numa overdose de pirotecnia (o clímax do show, como já é de praxe), "Live and Let Die". Dos anos 80, somente "Here Today", em homenagem a John Lennon. Do CD mais "recente", como Paul disse em português. carregando propositalmente no "r" com sotaque brasileiro, foram tocadas "Queenie Eye" e "New" (a faixa-tútulo).  Em homenagem a sua esposa Nancy, Paul cantou a romântica "My Valentine", de 2012. A mais nova de todas foi "Four Five Seconds". E o restante das três horas foi só Beatles, Beatles e mais Beatles.
Uma curiosidade é que Paul interpretou "In Spite of All The Danger", composição dele e George Harrison que foi gravada originalmente num acetato particular em 1958 e lançada somente em 1995 na série "Anthology". É uma canção dos Beatles que ficou guardada para as gerações mais novas. Uma regra que o músico há tempos quebrou é de só cantar músicas do quarteto de Liverpool em que ele fosse o vocalista original (e, por extensão, o principal compositor). Assim, o público do Beira-Rio escutou "Being for The Benefit of Mr. Kite", de John Lennon, "I Wanna Be Your Man", mais conhecida na voz de Ringo, e "Something", de George Harrison, esta já há bastante tempo no repertório.
A acústica "Blackbird", do Álbum Branco, foi anunciada em português como sendo sobre "direitos humanos", depois Paul emendou em inglês: "civil rights". Ao final, ouviu-se um rápido mas sólido "Fora Temer" no estádio. Além das já citadas, compuseram a "sessão Beatles": "Can't Buy Me Love", "Got to Get You Into My Life", "I've Got a Feeling" (com o guitarrista Rusty Anderson cantando a parte de John, "everybody had a hard year", etc.), "We Can Work it Out", "You Won't See Me", "Love Me Do", "And I Love Her", "Lady Madonna", "Eleanor Rigby", "A Day in the Life", "Obladi Oblada", "Back in the USSR", "Let it Be" (acompanhada por luzes de celulares nas arquibancadas, substituindo o antigo ritual dos isqueiros), "Hey Jude" e, no já conhecido e esperado bis, "Yesterday", "Sgt. Pepper's Reprise", "Helter Skelter" (o momento "heavy metal" do show), "Birthday", "Golden Slumbers", "Carry That Weight" e, para encerrar oficialmente, "The End".
Já faz parte dos shows de Paul um momento de interação com felizardos membros da plateia escolhidos pela produção para subirem no palco. Em 2010, como todos lembram, duas garotas abraçaram o músico e uma delas, que passou a noite toda exibindo um cartaz pedindo um autógrafo no braço para fazer uma tatuagem, teve seu desejo atendido. Outra fã tentou o mesmíssimo expediente na sexta-feira, mas a chance de Paul repetir o procedimento era praticamente nula. Em vez disso, quatro admiradoras vestindo roupas idênticas foram chamadas para dançar em "Birthday". Elas já tinham assistido à passagem de som (um pacote caríssimo para quem quisesse um show extra à tarde) e seguem os shows de Paul no Brasil desde 2013, como disseram ao site Clicrbs.
Quando Paul se apresentou pela primeira vez no Brasil em 1990, um amigo me enviou uma carta para Brasília, onde eu me encontrava temporariamente, e disse que era bem provável que ele voltasse, pois encerrou falando: "Até a próxima!" Era apenas uma frase padrão, mas que acabou se concretizando. Pois o ex-Beatle a pronunciou novamente no final do show em Porto Alegre. Quem sabe? Além do já mencionado Rusty Anderson, fazem parte da banda o tecladista e multi-instrumentista Paul "Wix" Wickens, o baterista Abe Laboriel Jr. e o guitarrista Brian Ray,

quinta-feira, outubro 12, 2017

A volta de Paul McCartney

Da primeira vez em que publiquei esta foto aqui no Blog, dei uma informação errada. O disco na "eletrola" não era "I Want to Hold Your Hand", como eu pensava. Nem sei se levei esse disco para a praia de Atlântida, onde a foto foi tirada por minha mãe. Era outro compacto dos Beatles: "Long Tall Sally", com vocal de Paul McCartney. Até na beira-mar, em plena areia, esse disco tocou. Afinal, o aparelho era portátil e funcionava a pilhas.

E Paul McCartney, quem diria, está de volta a Porto Alegre. Da primeira vez já parecia bom demais, então quem poderia imaginar uma segunda vinda sete anos depois? Hoje moro ainda mais perto do Beira-Rio, onde ele se apresentará novamente amanhã. O único senão é que, ao que tudo indica, teremos uma chuva torrencial como a de ontem e de hoje. Mas já tivemos um bom "treino" com os Rolling Stones. É só preparar as capas de chuva e vamos lá! Bem vindo mais uma vez, Sir Paul!

quinta-feira, outubro 05, 2017

Porto Alegre de Todos os Tempos

Este livro de Paulo Palombo Pruss ainda não está à venda. Mas, só pelo título e pela capa, já dá pra ver que é um trabalho interessantíssimo. Com prefácio do ator Paulo José e apresentação do ex-prefeito José Fortunati. Aguardemos.

A volta de "1973, o Ano que Reinventou a MPB"


Para quem perdeu de comprar na primeira vez, o livro "1973, o Ano que Reinventou a MPB", organizado por Célio Albuquerque, está voltando. Já pode ser encomendado nas principais livrarias on-line. Breve também nas lojas físicas. Cliquem aqui para ver fotos da sessão de autógrafos de que participei em São Paulo em fevereiro de 2014. E assistam abaixo a uma entrevista concedida por Célio a Humberto Pinheiro, do programa Viva Domingo, na TV Povo de Fortaleza, juntamente com os dois cearenses que colaboraram com a obra: Marcos Sampaio e a cantora Mona Gadelha.

segunda-feira, outubro 02, 2017

Extremos

Está cada vez mais difícil ser ponderado e ter uma opinião equilibrada. Se você é de esquerda, tem que ser radicalmente contra a redução da maioridade penal e a favor da nudez indiscriminada. Se você é de direita, tem que pensar exatamente o oposto nos dois casos. Sobre a maioridade penal, já opinei aqui. Sobre a nudez, o que penso é muito simples: sou a favor da censura por idade. Isso vale também para aquela exposição do Santander. Certas coisas as crianças realmente não devem ver. Mas não sou a favor da censura que fecha ou proíbe uma mostra, filme ou peça de teatro. Pode ser assim ou sou obrigado a me alinhar aos radicais de um ou outro extremo?

sexta-feira, setembro 29, 2017

The Who (e Def Leppard) em Porto Alegre

O mês não pode terminar sem que eu faça um registro do show de The Who na terça-feira, dia 26. Às vezes lembro da escassez de artistas estrangeiros que vinham a Porto Alegre (ou mesmo ao Brasil) nos anos 70 e parte dos 80. Cada um deles era sorvido até a última gota pelo público e pela imprensa, de Rick Wakeman a Billy Paul, de Genesis a Liverpool Express. Mas os tempos mudaram para melhor e agora já podemos dizer que tivemos Paul McCartney (que voltará em outubro), Rolling Stones e The Who entre nós -  a nata da nata do rock inglês! Como se não bastasse, estamos recebendo astros em dobro na mesma noite. Def Leppard abriu para The Who e, da segunda vez em que veio Elton John, ganhamos também James Taylor. Qual será o próximo passo? Os músicos tocando em nossas casas? Eu diria que, quando os lendários Deep Purple e Yes se apresentaram para 1.500 pessoas espremidas no Opinião, chegamos perto disso.
Quem foi ao Anfiteatro Beira-Rio estava lá para ver The Who. Mesmo assim, todos ficaram positivamente impressionados com a performance do Def Leppard, de cerca de uma hora. No radinho do carro, as músicas deles podem soar como rock farofa (que eu adoro de qualquer forma), em especial em baladas como "Love Bites", que foi gravada em português pelo grupo brasileiro Yahoo ("Mordida de Amor"). Só que, na imensidão do estádio, elas ganham dimensão do melhor heavy metal, para roqueiro nenhum colocar defeito. Mas sempre com aqueles refrões ganchudos e bem harmonizados que são marca registrada da banda. O vocalista Joe Elliott segue em forma, com ótima presença de palco, e o baterista Rick Allen, se me perdoam o surrado clichê, é um exemplo de superação, tocando com um braço só desde seu acidente no final de 1984.
The Who já perdeu dois integrantes originais: o baterista Keith Moon em 1978 e o baixista John Entwistle em 2002, ambos falecidos. Permanecem o guitarrista, compositor e gênio musical Pete Townshend e o vocalista Roger Daltrey, que ganhou uma vitrine especialíssima em 1975 ao viver o papel principal no filme "Tommy", adaptado da ópera rock homônima do grupo. Como curiosidade, a banda de apoio inclui na guitarra Simon Townshend, irmão de Pete que já teve carreira-solo, e Zak Starkey, que não é outro senão o filho mais velho do ex-Beatle Ringo Starr, seguindo os passos do pai na bateria.
Para quem, como eu, possui praticamente todos os vídeos oficiais de The Who em DVD e Blu-ray, o show não teve surpresas. Foi exatamente a maravilha que eu esperava. Todos os clássicos do repertório executados com maestria: "I Can't Explain", "The Kids are Alright", "I Can See for Miles", "My Generation", "Behind Blue Eyes", "Pinball Wizard", "Baba O' Riley", "Won't Get Fooled Again" e "Substitute", entre outros. Brian Kehew, da equipe do grupo, escreveu um bonito texto sobre o show de Porto Alegre que pode ser lido (em inglês) aqui. Este trecho merece ser transcrito (com tradução minha):
"Houve poucos shows que vi tão fortes quanto este desde que me juntei à equipe em 2002: lembramos com carinho de uma apresentação particular no Orpheum Theater em Los Angeles que pode ter sido uma das melhores de The Who em qualquer década. Palácio de Desportes em Madri, em 2006, também foi excepcional. E esta noite foi tão boa quanto, com certeza uma das cinco melhores do Who da era atual."
Interessante esse depoimento porque, para nós, sem parâmetro de comparação, ficou apenas a impressão de um grande show de The Who, como se imagina que todos sejam. A Pista Premium não chegou a lotar, de forma que, com paciência, era possível aproximar-se do palco. O público parecia conhecer todas as músicas, cantando junto em refrões e trechos marcantes. De vez enquando, ouvia-se o que sooava como "u u u", mas era na verdade "Who Who Who". Deixo a vocês um "compacto" de 18 minutos do show, gravado e editado por mim:

terça-feira, setembro 26, 2017

Esperando The Who

A foto é do dia 22 de novembro de 2013, no pátio do Colégio Paula Soares, onde também funcionou o Pio XII nos anos 60 e 70. Fui com a camiseta do The Who. Pois hoje à noite, quem diria, verei o grupo ao vivo, no Beira-Rio.

segunda-feira, setembro 25, 2017

Ney Matogrosso e Nação Zumbi: falhas e acertos

Estive bem ocupado nesse fim de semana, então não assisti a nenhum dos shows do Rock in Rio 2017 em tempo real. Mas consegui gravar os que me interessavam. E de qualquer forma acompanhei os comentários pelo Facebook. Fiquei bastante intrigado quando mesmo os mais incondicionais fãs de Ney Matogrosso criticaram a apresentação dele com Nação Zumbi no dia 22, no Palco Sunset. Diziam que a combinação não deu certo e que Ney cantou mal. Seria mesmo?

Pois ontem à noite, finalmente, vi o show. E revi agora há pouco, para confirmar algumas impressões. Acho que é importante separar duas coisas: o projeto em si, que é interessantíssimo e musicalmente bem elaborado, e as falhas que inegavelmente ocorreram, maculando o evento. Havia uma enorme expectativa pelo fato de que o repertório dos Secos e Molhados seria revisitado. No fim, entremearam-se músicas do ex-grupo de Ney e do próprio Nação Zumbi, com resultados variados.
Foi uma boa sacada colocar um vídeo com os olhos de Ney ao fundo do palco no início do show. Não é exatamente um recurso original - vide a apresentação de Alice Cooper - mas funciona bem. O cantor entrou com uma roupa preta discreta para os padrões neymatogrossenses, mas com ótima presença de palco, como sempre. Está em forma e com bom astral aos 76 anos.
O problema começou já na primeira nota cantada de "Mulher Barriguda". Pela careta que Ney deixou escapar, podia haver alguma falha no retorno. O fato é que ele já iniciou desafinando, mas por pouquíssimo tempo. Logo o grupo engrenou e parecia que esse deslize ficaria como um incidente isolado da noite.
Com exceção de "Rosa de Hiroshima", que Ney cantou sozinho, todas as músicas dos Secos e Molhados foram interpretadas em uníssino por Ney e Jorge du Peixe. Houve quem atribuísse eventuais falhas à disparidade das vozes. Não me pareceu ser essa a questão. A justaposição de timbres "não miscíveis" já foi usada antes no universo da música, criando um efeito exótico. Não vai muito longe: em 1975, Ney e o cearense Fagner lançaram duas músicas em dueto, num compacto. E deu certo.
O forte da apresentação foram os arranjos. Nação Zumbi tem muita energia e as composições de João Ricardo (criador dos Secos e Molhados) aceitam bem uma guitarra mais pesada, que foi magistralmente executada por Lucio Maia. Destaque para "Tem Gente Com Fome", letra de Solano Trindade que João musicou, mas foi censurada e não entrou em nenhum disco dos Secos. Acabaria sendo gravada por Ney e João em seus respetivos discos solo de 1979. "Amor" e "Assim Assado" também ficaram perfeitas numa roupagem mais agressiva. "Delírio", de Gérson Conrad e Paulinho Mendonça, é uma power ballad que, igualmente, caiu bem numa execução vigorosa.
Não resta dúvida que o grande desastre da noite foi justamente o primeiro sucesso dos Secos e Molhados, a emblemática "Sangue Latino". Jorge du Peixe começou a cantar um compasso antes do esperado, mas isso não chegaria a comprometer. Só que, quando Ney juntou sua voz, novamente uma careta sinalizou que alguma coisa estava errada. E aí o que se seguiu foi um fiasco digno de amador de karaokê que não percebe que está fora do tom. Em raros versos, Ney encontrou a melodia, mas a perdeu em seguida. Com certeza houve problema no retorno, pois não foi uma situação normal. Falhas acontecem, mas é muito azar quando ocorrem logo numa vitrine como o Rock in Rio, com transmissão para todo o país e o momento eternizado em vídeo para ser revisto na Internet.
Mesmo assim, o saldo foi positivo. Dos Secos e Molhados, ainda se ouviu "Fala", de João Ricardo e Luhli. Nas músicas do Nação Zumbi, como "Cicatriz", "Um Sonho", "Refazenda" e "Maracatu Atômico", Ney limitou-se a fazer backing vocal. Esse show merece ser mantido e aprimorado, com mais ensaios e entrosamento para, aí sim, chegar ao ideal pretendido. O importante é não desperdiçar o que se criou em razão de um incidente. É exatamente pelas falhas que podem acontecer no palco que muitos discos ao vivo são consertados em estúdio. E o público nem fica sabendo disso.