segunda-feira, agosto 22, 2005

Miudezas

Na semana passada, fui pegar meu carro num estacionamento do Centro e vi outro cliente reclamando que não queria pagar o preço de uma hora. Isso me fez lembrar o quanto eu não sou miudeiro para essas coisas. Não digo que eu esteja certo. Mas sou assim. Posso conferir o total de uma conta e reclamar eventuais erros, mas não sei pedir exceções ou tratamentos especiais. Até me sinto mal quando vejo alguém fazendo isso.

Já fui criticado, por exemplo, por não pechinchar. E até não tiro a razão de quem fez a crítica. Eu ajo como se os produtos e serviços já nascessem com preço. Mas pelo contrário: muitas vezes o valor de uma mercadoria já é estipulado levando em consideração o “desconto especial” que será dado ao cliente. Há pessoas que já fazem da pechincha uma prática usual de consumo. Mas eu não consigo. Nem mesmo em situações em que a margem de lucro é totalmente arbitrária, como lojas de discos raros, por exemplo. Compro ou não compro, mas pechinchar, não faço. Acho muito mesquinho.

Minha mãe era uma pessoa muito econômica, mas não lembro de tê-la visto pechinchar em algum momento. Ela gostava de procurar lojas bem populares onde, dizia ela, encontravam-se os mesmos produtos das outras, mas a preços acessíveis. E assim, percorríamos a Voluntários da Pátria à procura de roupas e outros artigos. Mas não recordo de uma única ocasião em que ela tenha tentado baixar preço. Acho que ela não gostava desse joguinho. Um dia ela perguntou a um camelô o preço dos óculos escuros. Quando ele informou um valor que lhe pareceu alto, ela simplesmente virou as costas e disse que iria comprar de outro que vendia pela metade. O pobre vendedor ambulante ainda tentou baixar o preço dizendo que “tinha outros mais baratos”, mas minha mãe não deu conversa. Meu pai, que eu lembre, também não pechinchava, mas sabia negociar. Na presidência do Clube do Comércio, dizia o quanto podia pagar por um show e não cedia um milímetro. Como dificilmente um artista vinha a Porto Alegre especialmente para se apresentar no Clube, acabava aceitando o preço dele, para aproveitar a viagem.

No começo, o Shopping Praia de Belas tinha uma franquia de meia-hora sem cobrar estacionamento. O tempo limite foi reduzido para 20 minutos, mas sou capaz de apostar como essa mudança foi apenas na informação. No sistema, a carência deve continuar a mesma. É que devia aparecer muito cliente chorando que não era justo pagar por ter ficado “só dois minutos além do tempo” ou então contando uma baita história sobre como acabou se atrasando na fila da saída. Reduzir o tempo “oficial” foi uma solução perfeita, pois já fica prevista uma tolerância de dez minutos. Na prática, em qualquer situação, não existe “limite flexível”. Isso um colega meu captou muito bem no tempo do 2º Grau. Uma professora, vendo que ele estava demorando muito para entregar a prova, lhe falou: “Fulano, não fica tão preocupado em acertar uma questãozinha a mais, porque se faltar um ponto para a nota eu te dou automaticamente.” E ele, na mesma hora: “E se faltarem dois?” Nesse aspecto, o Shopping achou a fórmula ideal, criando dois limites: o oficial e o real (mas isso é apenas uma suposição minha, não tomem como uma informação privilegiada).

Num restaurante, o máximo que eu faço é pedir que não seja incluído arroz num prato que normalmente o conteria, mas não fico tentando trocar por outra coisa se essa opção não me for oferecida. Em rodízios, posso até dizer ao garçom o que mais me agrada, mas não fico pedindo que me tragam isso ou aquilo, ou não seria mais rodízio e sim a la carte. Talvez eu seja conformado demais, mas acho que a vida é curta e cheia de compromissos para que ainda me sobre tempo para ficar discutindo detalhes ou tentar negociar segundos e centavos. Encaro as ofertas como pacotes prontos: ou se compram, ou não se compram. Mas não tenho paciência de tentar mudá-las.