terça-feira, dezembro 06, 2005

Mercado de trabalho

Fechou uma fábrica da Azaléia em São Sebastião do Caí. Foram demitidos 800 funcionários. Num país como o Brasil, isso é grave. Uma tragédia.

Em 1980 eu estava cursando a Faculdade de Direito e me inscrevi no concurso do Banco do Brasil. Na época eu mantinha contato com missionários americanos para treinar meu inglês. Eles me perguntaram se o meu objetivo era trabalhar no banco apenas por seis meses. Quando respondi que não, que, se passasse, faria carreira lá dentro, acho que eles não entenderam. Por que um estudante de Direito quereria ingressar num banco?

Acabei entrando não no Banco do Brasil, mas em outra instituição. Em 1990, fiz um curso em que a maioria dos demais participantes era de empregados novos, que ainda estavam na base da pirâmide salarial. No intervalo, começaram a discutir as chances de buscar uma remuneração melhor em outra empresa. Um deles disse que estava pensando em fazer concurso para um tribunal, acho que era o TRT. Imaginei que, como estavam no setor de informática, não quereriam sair, pois é uma atividade muito cobiçada e alguns deles eram formados na área. Mas a eles importava o melhor salário.

Há pouco tempo, li o livro “Brazil: Life, Blood, Soul”, do inglês John Malathronas. Em suas andanças pelo país, John conheceu em Porto Alegre um bacharel em Direito que estava de malas prontas para se mudar para a Inglaterra. A atividade pretendida? Lavar pratos em restaurante. O autor não escondeu sua surpresa, mas o gaúcho explicou-lhe sobre as dificuldades de colocação no mercado local. E assim de vez em quando fico sabendo de outros brasileiros com curso superior que fazem planos de ir para o exterior entregar pizza, lavar cadáveres, trabalhar como camareiros ou garçons. E ainda falam com entusiasmo sobre o dinheiro que pretendem juntar, feito crianças deslumbradas com o mundo maravilhoso da economia estável.

Às vezes surgem concursos públicos em que a única exigência é curso superior, qualquer que seja. Seria um bom tema para uma reportagem de televisão. O repórter entrevistaria os candidatos na fila de inscrição fazendo basicamente três perguntas: 1) Em que você é formado? 2) Por que quer fazer este concurso? 3) Você sabe exatamente o trabalho que vai realizar se for aprovado? Na edição, poderiam ser mostrados apenas os casos mais curiosos e a matéria incluiria também o parecer de um orientador profissional.

Conclusão: o mercado de trabalho, no Brasil, é atípico. Existem, sim, heróis que se entregam de corpo e alma à profissão de seus sonhos. Ganham mal, sofrem privações, mas se sentem realizados. Aliás, alguns até ganham bem. Mas são exceções. Cada vez mais ouço dizer que a melhor faculdade é a de Direito porque é a que “abre mais chances para concursos”. Ou seja: vocação é detalhe, importante é conseguir um bom salário. Mesmo na faculdade de Jornalismo alguns professores nos alertavam para as dificuldades que enfrentaríamos. Dois deles chegaram a insinuar que havíamos cometido um erro na escolha da profissão.

No país do concurso público, feliz de quem pode fazer só o que gosta. Eu me considero privilegiado por conseguir conciliar mais de uma atividade. Ter emprego já é uma bênção. Que Deus proteja os 800 demitidos da Azaléia.

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