sábado, dezembro 24, 2005

Rou, rou, rou

Não sei se a americanização que observo hoje é um fenômeno que começou há cerca de 20 anos ou já vinha num crescendo desde muito antes de eu nascer. Só sei que há expressões e culturas que antigamente só existiam nos Estados Unidos (e, conforme o caso, países de língua inglesa) que hoje já fazem parte do nosso cotidiano. Por muito tempo eu achei que "só eu" conhecia certos elementos da cultura americana, pelo fato de estudar inglês, ler revistas estrangeiras e, na adolescência, freqüentar o Cultural Americano. Mas hoje está tudo aí ao meu redor.

Quando foi lançado no Brasil o filme "Juventude Transviada", imagino que escolheram esse nome porque o original, "Rebel Without a Cause", não faria muito sentido por aqui. Hoje a expressão "rebelde sem causa" é de uso corrente e cairia até melhor do que o anacrônico título escolhido em português. Em 1978, na aula de inglês do cursinho (IPV, velhos e bons tempos), o professor Adroaldo Almir Endres teve que explicar aos alunos o que significava o termo "gay", que aparecia em um dos exercícios. Hoje não só se sabe o que quer dizer como mais um anglicismo foi incorporado ao português: "sair do armário" como sinônimo de "soltar a franga", "assumir a condição". Mais um pouco e estarão chamado "enrustido" de "armário" (closet).

Em outubro, minha faxineira disse com a maior naturalidade que o filho dela iria numa festa de Halloween. E pronunciou "ralouín", mesmo, sem se atrapalhar. Eu vim a saber desse evento no informativo do Cultural Americano quando me matriculei pela primeira vez em 1975. O Cultural, por razões óbvias, promovia Halloween todos os anos, mas fora dali ninguém sabia do que se tratava. Nos gibis da Luluzinha que eu lia na infância, a tradução era "Dia das Bruxas", mesmo. Hoje, pelo que eu sei, já tem criança brasileira brincando de "gostosuras ou travessuras", uma tradução adaptada de "tricks or treats". Só faltam as abóboras para serem esmagadas. Quando os americanos da Internet me perguntam se tem Halloween no Brasil eu fico sem saber o que responder.

Eu sou do tempo em que os cinemas ficavam na calçada e tinham um aviso de que era expressamente proibido entrar com amendoim ou pipocas. Hoje as pipocas são bem-vindas e os assentos já têm até o lugar próprio para a latinha de refrigerante. As crianças aprendem desde cedo o que é "shit", "fuck" e "motherfucker". Já nos anos 80 a Blitz queria passar um "weekend" com você. As ofertas são anunciadas como "sale" e os descontos com um enorme "OFF" na vitrine. Um dia desses eu estava conversando com uma amiga que não fala inglês e lá pelas tantas ela disse que estava "speechless" com o que eu tinha contado.

Ah, sim: na minha infância o Papai Noel não dizia "rou rou rou". Isso eu vim a aprender nos gibis e depois numa música de Natal de Elton John chamada "Ho Ho Ho (Who'd Be a Turkey at Christmas)". De repente, o "ho ho ho" do Papai Noel americano virou "rou rou rou" no Brasil. Ora, quem aqui ri assim? Que eu saiba, só a Ângela Ro Ro, que ganhou esse apelido por causa da risada. Mas agora o Papai Noel brasileiro também diz "rou rou rou" com sotaque americano e tudo. Então tá, né?


Feliz Natal a todos os visitantes do blog! Melhores desejos! Saudações da estação! Rou rou rou!

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