sexta-feira, março 24, 2006

Memória

Em geral a gente só descobre que tem uma habilidade especial quando percebe que os outros não a possuem. Sem parâmetro de comparação, tudo parece normal. Por exemplo: na 6ª série eu achava que Inglês era uma matéria fácil para todos. Afinal, vários colegas se saíam bem. O que eu não notava é que eles já estavam estudando por fora, no Cultural. No ano seguinte, tivemos que escolher entre Inglês e Francês. Quem já fazia curso de Inglês por conta própria optou por Francês. Sem esses na minha turma, passei a ser o primeiro a entregar a prova e comecei a me destacar. Até que, para aproveitar meu potencial, comecei no Cultural também e continuei tendo facilidade mesmo lá. Aprender Inglês foi uma das melhores coisas que fiz na vida.

Pois bem: cada vez mais as pessoas dizem que eu tenho boa memória. Nunca me imaginei com esse dom, pelo menos não acima da média. Para mim, as lembranças que ficam são como fotos que se guardam durante anos. Ou quadros que vão para a parede e nunca mais saem dali. Também não sei explicar por que critério minha memória retém certos momentos e descarta outros. Às vezes, vejo de novo um filme a que assisti décadas antes e fico surpreso com quanta coisa não lembrava. Isso é sinal de que não lembro de tudo, mas alguns "flashes" estão eternizados. Em princípio, seriam momentos marcantes, que foram importantes para mim. Mas nem sempre. Às vezes recordo passagens totalmente insignificantes e aleatórias. Mas quando divido minhas memórias com outros que delas fazem parte, impressiona-me o quanto não lembram. E aí, claro, dizem que tenho boa memória. Será?

Até há bem pouco tempo eu tinha uma foto da turma do Jardim de Infância, em 1966. Ela me ajudava a guardar algumas fisionomias. Tanto que reconheci dois ex-colegas daquela época na Faculdade. Antes dos 30 anos nunca acontecia de eu ver alguém e não lembrar de onde conheço. Geralmente sabia dar a ficha completa da pessoa. Imagino o quanto isso me seria útil se eu resolvesse me candidatar a algum cargo eletivo. Já pensou, entregar um santinho para alguém na rua e dizer "lembro de ti, foste meu colega no Cultural no intensivo de verão em 1975 com a professora Tal, estavas fazendo o teu segundo vestibular, mas logo trocaste de turma". Hoje ainda reconheço muita gente, mas já começo a ficar em dúvida de onde. Mesmo assim, ainda trago muitas lembranças. E chego a me decepcionar quando outras pessoas não lembram sequer de mim, que dirá dos fatos que compartilhamos. Será que eu era tão insignificante?

Em dezembro de 2002, participei de um programa de rádio levando gravações raras conseguidas por um amigo de Curitiba (grande Juarez!). Papo vai, papo vem, citei a cantora Élbia, que rodava na rádio Continental nos anos 70. Um dos apresentadores do programa perguntou quem era ela, pois disse não lembrar dela nem da época. Eu respondi: "Como não lembras dela? Escreveste uma matéria sobre ela em 1976!" Ele não recordava. No meio do programa, o ex-técnico da Continental, Francisco Anele Filho, telefonou para rodar uma gravação rara. Quando ouvi a voz do locutor dizendo "o relógio quebrou", eu já sabia o que era: a falsa notícia da morte de Jorge Mautner (que está até hoje muito vivo), veiculada em março de 1975. Eu lembro porque foi num curto período em que morei com minha irmã e foi lá que escutei. Um músico que estava no estúdio junto comigo deve ter ficado bem impressionado, pois até hoje, sempre que alguém o procura para perguntar sobre a rádio Continental, ele me indica e elogia a minha memória.

Curiosamente, usa-se o termo "esquecer" (em outros idiomas, inclusive) como sinônimo de deixar de gostar de alguém, geralmente numa situação em que se está ou estava sofrendo. Eu já vivi paixões aparentemente incuráveis. Os amigos se espantavam: "Ainda não esqueceu a Fulana?" Nunca me ocorreu responder: "Que posso fazer se tenho boa memória?" Falando sério, pode ter algo a ver, sim. É uma tendência de acumular de tudo um pouco: sentimentos, objetos, lembranças e até alguns quilos em excesso. Pode haver até alguma relação com o que se chama em inglês de "anal retentive", expressão horrorosa que os nativos do idioma usam de forma corriqueira para definir uma pessoa apegada a detalhes inúteis. Fora a questão do peso, não vejo problema em ser assim. É o perfil típico do arquivista, que coleciona itens de seu interesse ao mesmo tempo em que guarda detalhes sobre fatos que podem ou não se tornar históricos.

Enfim, talvez eu tenha, sim, boa memória. Mas eu ainda acho que a dos outros é que é ruim.